Maria da Graça Carvalho admite que a ligação submarina pode reforçar a segurança energética de Portugal, mas projeto continua sem decisão final e poderá custar centenas de milhões de euros.
Portugal só avançará para a construção de uma ligação elétrica submarina a Marrocos se conseguir mobilizar financiamento privado ou apoio da União Europeia. A garantia foi deixada esta sexta-feira, 4 de setembro de 2026, pela ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, que reconheceu o interesse estratégico do projeto, mas também o seu elevado custo.
“O que ficou combinado entre mim e a ministra [da Energia de Marrocos] é que avançaríamos se houvesse interesse de privados ou a ajuda da União Europeia”, afirmou a governante aos jornalistas em Castro Verde, no distrito de Beja.
A declaração surge numa altura em que Lisboa e Rabat voltaram a discutir a criação de uma interligação elétrica direta entre os dois países. A infraestrutura permitiria trocar eletricidade através de um cabo instalado no fundo do mar e reduziria a dependência exclusiva da ligação existente com Espanha.
Projeto ainda está em fase de estudo
Apesar da intenção política, a ministra deixou claro que não existe ainda uma decisão definitiva nem um calendário para a obra. Maria da Graça Carvalho classificou a ligação como “uma conversa” que continua a ser mantida com a homóloga marroquina.
O projeto exige estudos técnicos, económicos e financeiros antes de qualquer compromisso. De acordo com informações divulgadas anteriormente pelo Jornal Económico, a estimativa atualmente em análise aponta para um investimento global de cerca de 650 milhões de euros, a repartir entre Portugal e Marrocos. Uma avaliação mais antiga colocava o custo total próximo dos mil milhões de euros.
As diferenças entre os valores refletem o facto de se tratar de estimativas preliminares, dependentes do traçado escolhido, da capacidade do cabo, das subestações necessárias e do modelo de financiamento. Não foi anunciado qualquer montante final nem confirmada a adjudicação da obra.
Apagão de 28 de abril reacendeu debate
A discussão ganhou novo impulso depois do apagão que atingiu a Península Ibérica em 28 de abril de 2025. O corte generalizado deixou Portugal continental e Espanha sem eletricidade durante várias horas e obrigou à reposição progressiva do sistema elétrico.
Maria da Graça Carvalho argumenta que uma ligação direta a Marrocos poderia oferecer uma alternativa durante uma crise desta natureza. Portugal integra atualmente o mercado elétrico ibérico com Espanha, mas ficou particularmente dependente do processo de recuperação da rede espanhola após o incidente.
“Temos um mercado elétrico ibérico com Espanha, mas quando há um apagão, como houve, tivemos que recomeçar sozinhos”, explicou a ministra.
A governante defende que o principal benefício do cabo não seria apenas a compra ou venda regular de energia, mas a possibilidade de contar com uma rede adicional para ajudar a reerguer o sistema em caso de falha grave.
O relatório técnico apresentado pelo Governo português em março de 2026 concluiu que a origem do apagão esteve em Espanha e afastou responsabilidades das autoridades portuguesas. O documento abriu também uma nova fase de avaliação sobre eventuais compensações, mas não determina que a construção de uma nova ligação com Marrocos seja inevitável.
Espanha acompanha projeto com preocupação
A hipótese de uma ligação direta entre Portugal e Marrocos está igualmente a ser observada em Espanha. A imprensa económica espanhola e portuguesa noticiou preocupações relacionadas com o impacto geopolítico e energético de uma infraestrutura que permitiria a Portugal trocar eletricidade com Marrocos sem depender exclusivamente da rede espanhola.
Portugal e Marrocos já tinham discutido uma interligação semelhante em anos anteriores. Em 2018, a REN e a sua homóloga marroquina, ONEE, receberam mandato para preparar uma proposta de anteprojeto e um modelo de financiamento. O processo acabou por não avançar para a fase de construção.
Marrocos já está ligado eletricamente a Espanha por cabos submarinos, que desempenharam um papel na recuperação da rede durante o apagão de 2025. A solução agora em estudo teria, contudo, uma ligação direta ao sistema português e poderia aumentar a redundância energética da região.
Por enquanto, a posição do Governo é prudente: há interesse estratégico, existem estudos em curso e foram retomados contactos diplomáticos, mas a obra só deverá avançar se houver investidores privados ou fundos europeus suficientes para evitar que o custo recaia integralmente sobre os contribuintes e consumidores dos dois países.
Fontes
- CNN Portugal — Cabo submarino entre Portugal e Marrocos só com financiamento privado ou da União Europeia — 2026-09-04
- Jornal Económico — Espanhóis preocupados com cabo submarino entre Portugal e Marrocos — 2026-09-04
- Jornal Económico — Portugal e Marrocos vão estudar autoestrada de energia debaixo do mar — 2026-08-01
- XXV Governo Constitucional — Apagão elétrico: relatório iliba Portugal de responsabilidades — 2026-03-20
- Enerdata — Portugal and Morocco move forward with power interconnection — 2026-08-01

