O procurador-geral da República confirmou três inquéritos-crime e dois processos de natureza não criminal. Dois casos foram classificados como urgentes.
O ministro da Administração Interna, Luís Neves, está envolvido em cinco processos distintos, três dos quais são inquéritos-crime. A confirmação foi feita pelo procurador-geral da República, Amadeu Guerra, que indicou ainda que os processos relacionados com o atrelado apreendido e com as obras realizadas numa propriedade do governante em Odemira têm natureza urgente.
A revelação coloca sob escrutínio judicial um conjunto de episódios que se foram acumulando desde julho, quando começaram a surgir notícias sobre a utilização de bens apreendidos, a relação do então diretor nacional da Polícia Judiciária com um empreiteiro e obras realizadas numa propriedade particular no Alentejo.
Três inquéritos no Ministério Público
Segundo Amadeu Guerra, dois dos inquéritos estão no Departamento de Investigação e Ação Penal Regional de Lisboa. Um deles incide sobre o percurso de um atrelado apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga e que acabou nas instalações da Construbarcelos, empresa ligada ao empreiteiro João Carvalho.
O atrelado transportava dezenas de bidões com produtos químicos inflamáveis, incluindo acetato de etila e hexano. O equipamento tinha sido apreendido no âmbito da Operação Pacoba, mas acabou por ser deslocado do Seixal para Barcelos. A mudança ocorreu quando Luís Neves ainda dirigia a Polícia Judiciária e tornou-se um dos principais focos da investigação.
O Ministério Público procura esclarecer quem autorizou o transporte, em que circunstâncias o bem foi entregue à empresa privada e porque não foi cumprida uma ordem anterior para a destruição dos produtos. Luís Neves assumiu ter dado instruções para a deslocação, mas classificou a decisão como um ato de gestão destinado a resolver a falta de espaço e a evitar custos elevados para o Estado.
A Polícia Judiciária recuperou entretanto o atrelado. A investigação deverá apurar se houve irregularidades criminais, sem que exista, até ao momento, qualquer conclusão definitiva sobre responsabilidades.
O segundo inquérito em Lisboa está relacionado com o automóvel que Luís Neves continua a utilizar. Trata-se de um Volkswagen Golf GTD apreendido a Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxas”, condenado por tráfico de droga. O veículo foi cedido pela Polícia Judiciária à Administração Pública através de um contrato de comodato, mas existem dúvidas sobre a legalidade e os procedimentos que permitiram a sua utilização pelo ministro.
Luís Neves tem defendido que os bens apreendidos podem ser colocados ao serviço das autoridades enquanto não existe uma decisão judicial definitiva. A Polícia Judiciária sustenta que a utilização de viaturas e outros bens apreendidos pode ser autorizada nos termos legais, embora o caso concreto esteja agora sob análise do Ministério Público.
Obras em Odemira no centro de outro inquérito
O terceiro inquérito-crime decorre no DIAP Regional de Évora e está centrado nas obras realizadas numa propriedade de Luís Neves, em São Teotónio, no concelho de Odemira.
As notícias sobre a intervenção na propriedade referiram a construção de uma estrutura inicialmente descrita como tanque e que terá assumido características de piscina, sem licenciamento ou comunicação prévia à autarquia. O ministro afirmou que não pretendia construir uma piscina e admitiu que, perante o conhecimento atual, teria conduzido o processo de forma diferente.
A investigação também examina a intervenção da Construbarcelos, empresa que realizou trabalhos para a Polícia Judiciária durante o período em que Neves era diretor nacional. O governante garante que só conheceu João Carvalho depois de concluída a maioria dos contratos públicos atribuídos à empresa e rejeita ter favorecido o empreiteiro.
Há ainda referências a pagamentos em dinheiro e à utilização de materiais provenientes da Infraestruturas de Portugal. Estes elementos são alegações e terão de ser avaliados pelas entidades competentes.
Dois processos fora da esfera criminal
Além dos três inquéritos, existem dois processos de natureza não criminal. Um corre no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja e incide sobre as questões urbanísticas e administrativas relacionadas com as obras na propriedade de Odemira.
O outro está no Tribunal de Contas e resulta de uma auditoria à gestão financeira da Polícia Judiciária, realizada em 2023. O processo envolve uma contraordenação e matérias relacionadas com procedimentos administrativos, contratação pública e utilização de cartões de crédito. O Tribunal de Contas terá emitido um parecer favorável com reservas, sem aplicação de sanções financeiras na auditoria referida.
Amadeu Guerra explicou que os processos estão em investigação e recusou avançar uma data para a sua conclusão. O procurador-geral garantiu, contudo, que os dois casos classificados como urgentes continuaram a ser tramitados durante o período de férias judiciais.
“Queremos que seja dado despacho final nesses processos o mais rapidamente possível”, afirmou Amadeu Guerra.
Luís Neves tem rejeitado as suspeitas e diz saudar todas as investigações. Até ao momento, não foi anunciada qualquer acusação formal contra o ministro, nem existe decisão judicial que estabeleça a prática de crimes.
Fontes
- Observador — Cinco processos, um carro e um atrelado. Afinal, porque é que Luís Neves está a ser investigado? — 2026-09-03
- Lusa / Record Europa — Há cinco processos na justiça sobre casos que envolvem ministro Luís Neves — 2026-09-04
- Rádio Renascença — PGR revela que Luís Neves está envolvido em cinco processos na justiça — 2026-09-03
- ECO — Luís Neves no labirinto, dos inquéritos crime à moção de censura — 2026-09-04

