Portugal autorizou a construção de quase 250 mil novas habitações nos últimos sete anos, mas uma parte significativa continua sem chegar ao mercado. Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e noticiados pela RTP indicam que, entre 2019 e 2026, foram licenciados 247 600 fogos, enquanto apenas 159 465 estavam concluídos.
A diferença ronda os 88 mil fogos. O número ajuda a explicar por que razão o país continua a enfrentar uma forte pressão sobre as rendas e os preços de venda, apesar de existir um volume expressivo de projetos que já recebeu autorização administrativa.
Licença não significa casa pronta
Os números não significam que todas essas habitações estejam abandonadas ou disponíveis para ocupação imediata. Uma licença pode corresponder a uma obra ainda em curso, a um projeto parado ou a um processo que aguarda financiamento, empreiteiro, trabalhadores especializados ou novas autorizações.
As próprias entidades ouvidas pela RTP alertam para a necessidade de interpretar os dados com cautela. O tempo médio de execução de uma habitação pode prolongar-se por vários anos, sobretudo quando existem atrasos na contratação de empresas, dificuldades no acesso ao crédito ou problemas de legalização.
O bloqueio está entre o papel e a chave
A dimensão do desfasamento revela, contudo, um problema que vai além da falta de terrenos ou de licenças. O país consegue aprovar projetos, mas continua a ter dificuldades em transformar essas autorizações em casas habitáveis. A escassez de mão de obra na construção, o encarecimento dos materiais e a instabilidade financeira dos promotores podem atrasar ou inviabilizar obras já licenciadas.
O INE registou, no segundo trimestre de 2026, uma subida do número de fogos licenciados em construções novas e também dos fogos concluídos face ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, a evolução trimestral não elimina o atraso acumulado ao longo dos últimos anos.
O Governo tem defendido a aceleração da construção e a mobilização de investimento público e privado, mas os dados colocam uma exigência concreta: acompanhar cada licença até à conclusão da obra. Sem essa monitorização, milhares de autorizações podem continuar a existir apenas no papel, enquanto famílias enfrentam rendas elevadas e esperas cada vez mais longas.
Fontes
Imagem: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

